Adoção e a fidelidade da criança pela família de origem

michelangelo adoção

Mesmo que a criança adotada não se lembre dos pais biológicos, ela pode se manter conectada a eles e fiel aos seus valores em uma tentativa inconsciente de demonstrar o seu amor e resgatar a dignidade dos pais

 

A adoção de crianças pode ser uma prática benéfica, mas para que isso ocorra é importante que se tenha consciência de alguns aspectos importantes.

Sistemicamente a melhor solução é o empoderamento dos pais para que assumam a responsabilidade por seus próprios filhos. Apenas quando isso não é possível e nem há algum familiar em condições de assumir a guarda das crianças é que a ajuda de terceiros é uma boa possibilidade. O ideal é que essa ajuda venha inicialmente de um tutor, ou seja, uma família acolhedora que possa cuidar das crianças até que seus pais biológicos tenham condições de recebê-las de volta. É pela falta das famílias acolhedoras que muitas crianças ficam em abrigos aguardando decisões judiciais (para ser um tutor, o 1º passo é se cadastrar na vara da infância e da juventude de seu município). Quando não é de fato possível restituir as crianças às suas famílias de origem é que a adoção por terceiros pode ser de fato benéfica a todos. No entanto, para isso é importante que a motivação principal da família adotante não seja apenas de resolver uma carência sua. O foco é a criança, sua saúde física, mental e emocional. A família tutora e a família adotiva precisam nutrir isso conscientemente e perceber que estão se disponibilizando a colaborarem com os pais biológicos, a continuar o trabalho que estes não estão em condições de dar prosseguimento.

Independente de qual seja o papel desempenhado, é importante saber que, para ajudar uma criança, é preciso ter os pais dela no coração. Isso significa incluí-los, acolhê-los, mesmo que você não os conheça pessoalmente, sem julgamento, sem criticas à sua conduta. Isso é extremamente importante, pois a criança originou-se fisicamente dos seus pais biológicos, cada célula de seu corpo contém 50% do pai e 50% de sua mãe. Uma falta de aceitação dos pais biológicos pode fazer com que a criança se rebele contra os pais adotivos, ou ainda, caso ela própria não aceite seus pais biológico, torne-se depressiva ou somatize doenças como, por exemplo, as doenças autoimunes, onde o corpo rejeita a si próprio. Portanto, por mais difícil que tenha sido o destino de uma criança, cuide para que seus sentimentos não sejam de pena pela criança e de revolta contra seus pais. É preciso ter um olhar de respeito pelo destino da criança, ainda que você não concorde com ele. Aceitar a realidade da forma como ela se apresentou até então pode ser algo difícil, mas é importante. Isso não significa que os pais não serão punidos pelos delitos que tenham cometido, significa que você cuida da criança sem a necessidade de julgá-los (a menos que você seja o profissional incumbido de deliberar sobre o caso, mas neste caso não será você que cuida da criança).

As crianças adotadas pertencem ao sistema familiar dos pais biológicos e, se tudo correr bem, também dos pais adotivos. Quando digo que elas pertencem estou dizendo biológica e energeticamente, pois juridicamente, o Estatuto da Criança e do Adolescente não reconhece o pertencimento aos pais biológicos, apenas aos adotivos. O nome e o sobrenome dos pais biológicos são removidos da certidão de nascimento. Independente das razões para tal, o fato é que os pais biológicos são excluídos. No entanto, existem leis naturais que sobrepõe-se às leis jurídicas e que vão além da consciência do indivíduo, é a consciência do sistema familiar a que esse indivíduo pertence (se isso é novidade para você, leia mais sobre “Constelação Familiar”, onde cada uma destas leis foi sistematizada pelo alemão Bert Hellinger, a partir de centenas de verificações). Uma destas leis diz que todos que nascem em uma família têm direito de pertencer a ela. Quando esse direito não é respeitado, desajustes sistêmicos podem ocorrer. Tais desajustes são tentativas da consciência do sistema familiar de reequilibrar o sistema, de compensar a exclusão. Os desajustes mais comuns nestes casos são abortos ou divórcio do casal adotante. Isso funciona como uma compensação sistêmica: “o sacrifício da relação de casal como uma compensação por privar os pais naturais de seus filhos”. Portanto, para evitar os efeitos dessa exclusão, é extremamente importante que os pais adotivos incluam os pais biológicos no coração. Em outras palavras, que ao olhar para seus filhos adotivos, os pais possam ver neles a obra-prima dos pais biológicos e reconhecer a importância deles na vida dessa nova família.

Mesmo que a criança não se lembre dos pais biológicos, ela pode querer demonstrar o seu amor e tentar recuperar a dignidade deles se mantendo fiel aos seus valores. Vou ilustrar isso trazendo uma situação real que ocorreu durante uma constelação familiar para tratar de um comportamento desajustado de uma criança adotada. O pai adotivo relatou que a criança adotada (com 8 anos) estava furtando os objetos escolares de seus colegas. Então, para dar início à constelação familiar, o terapeuta solicitou ao pai que escolhesse algumas pessoas do grupo para representarem as pessoas envolvidas nesse sistema familiar. Foram escolhidos representantes para a família biológica: o pai, a mãe, a avó e a irmã da criança e representantes para os pais adotivos. Então foi dado início ao processo e a consciência do sistema familiar pôde ser acessada por cada um dos membros ali representados que começaram a trazer sintomas e sentimentos dos membros reais. Nesse caso específico chamou a atenção o amor que a criança sentia por seu pai biológico. Envolta em lágrimas e abraçada a ele, a representante da criança dizia: “Papai, você é o pai mais bom do mundo”. Nesse momento o terapeuta perguntou ao pai adotivo o que tinha acontecido com o pai biológico, ele relatou que este estava preso por furto. Assim, o que a criança estava demonstrando ao furtar objetos na escola era uma fidelidade ao seu pai e uma forma inconsciente de dizer: “Eu sou como o meu pai. Apesar de tirar coisas de meus colegas eu sou uma pessoa boa, o meu pai também é bom.” A solução para essa constelação foi o pai adotivo reconhecer e aceitar esse amor da criança adotada por seu pai biológico e ao reconhecer isso os representantes dos pais biológicos puderam ser gratos aos pais adotivos por eles estarem cuidando de suas filhas (no caso, eram duas irmãs). É dessa forma que a criança adotada pode passar de fato a fazer parte da família adotiva, quando aceita essa nova família em seu coração por perceber que seus pais biológicos são reconhecidos e que seu amor por eles é aceito.

É claro que todas estas questões são complexas e podem ser bastante desafiadoras para todas as partes envolvidas: a criança, a família biológica, a família tutora e a família adotiva. A Constelação Familiar é uma ferramenta terapêutica muito eficiente para descobrir onde estão os desajustes sistêmicos e harmonizar as relações na família de origem e na nova família da criança, devolvendo e honrando o lugar e o papel de cada um dentro do sistema familiar.  Quando cada um ocupa o seu lugar e desempenha o seu papel com consciência, sem se sentir superior ou inferior aos outros membros do sistema, a adoção pode ser um instrumento maravilhoso de parceria e uma oportunidade real de desenvolver a forma mais elevada de amor, o amor incondicional. Antes de querer julgar os pais biológicos, pense que em um mundo perfeito, com situações e pessoas perfeitas, o amor, a fraternidade e a tolerância não teriam nascido. É exatamente nas circunstâncias difíceis que estão às oportunidades para que cresçam em nós as virtudes capazes de nos humanizar. É com esse olhar que você pode incluir os pais biológicos em seu coração, como dádivas em seu caminho de evolução.

Texto de autoria de Cecília Costa*

*Cecília Costa é diretora do Instituto SerMente Livre, terapeuta em Constelação Familiar e Pedagoga Waldorf.

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Uma terapia para a alma

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Embora a palavra alma ainda figure para muitos como algo abstrato e até mesmo duvidoso, é possível observá-la a partir de suas três qualidades: o pensar, o sentir e o querer. Os conflitos surgem na alma quando forças contrárias nos dividem, provocando uma incoerência entre o que pensamos, sentimos e fazemos. Muitas vezes sentimos essas incoerências, mas não temos consciência de suas causas. Isso ocorre porque as causas podem estar além de nossa consciência individual, elas podem, por exemplo, ter tido origem no nosso sistema familiar, em episódios que envolveram pessoas de gerações anteriores à nossa, na maioria das vezes que nós nem mesmo chegamos a conhecer.

Para tornar consciente as causas desconhecidas de nossos desequilíbrios, o alemão Bert Hellinger (1925-  ) desenvolveu as Constelações Familiares e, a partir da aplicação desta técnica em centenas de pessoas, conseguiu compreender e formalizar as leis que regem o movimento da alma dentro do sistema familiar, as quais ele chamou de “ordens do amor”. Paralelamente aos trabalhos de Hellinger, o biólogo inglês Ruppert Sheldrake (1942-  ) formalizou a teoria dos campos mórficos (ou morfogenéticos), a qual postula que há um campo de informação inerente aos organismos e sistemas vivos. O que Bert Hellinger desenvolveu foi uma técnica para acessar esse campo de informação, de modo que a pessoa possa conhecer as informações pertinentes aos problemas que ela traz e os ajustes necessários para saná-los. Em linguagem moderna é como se o terapeuta da constelação familiar fosse um programador e analista de sistemas que acessa a linguagem do software, reprograma-o de modo a sanar as incoerências do sistema e ainda traduz para o cliente a razão para os desajustes observados. Como as informações do software estão na nuvem, assim que ocorre a reprogramação todos os usuários serão automaticamente beneficiados pela nova versão. No caso das Constelações Familiares, o “software” é o programa que regula a dinâmica inconsciente das relações entre os membros do sistema familiar. Cabe ao terapeuta acessar estas informações, torná-las consciente para o cliente e estabelecer uma nova dinâmica de relações que esteja em consonância com as leis que regem um movimento harmônico da alma. Isso é conseguido quando cada membro do sistema pode voltar a ocupar o seu próprio lugar, reconhecer e respeitar o lugar do outro e aceitar o destino de cada um. Quando esta reprogramação é feita e o cliente está aberto para aceitá-la em seu coração, o sistema familiar passa a operar de acordo com esse novo sistema de informações. Os beneficiados são o cliente e as demais pessoas conectadas ao seu sistema, que agora passam a ter um novo conjunto de informações que regula a qualidade das relações dentro do sistema familiar.

Embora o nome original tenha sido Constelação Familiar, o termo foi posteriormente ampliado para Constelação Sistêmica (pois podem ser trabalhados outros sistemas além do sistema familiar) e, mais recentemente, para Constelação da Alma, uma abordagem quase sem palavras onde o principal é o movimento da alma, expresso pelos movimentos corporais dos representantes que são conduzidos pelo campo de informação do cliente, ao qual estão em ressonância (ou sintonia).

Os desajustes da alma, ou seja, do pensar, do sentir e do querer não ficam restritos a esse nível. Se não forem tratados podem ser somatizados em doenças que afetam o corpo físico, de modo que as constelações familiares também são valiosas nesses casos. Dentro do sistema familiar, alguns dos acontecimentos que mais frequentemente são causas e/ou consequências de desarmonias em um ou mais membros da família são: 1) existência de pessoas excluídas da família; 2) pessoas que tomam o papel de outras, por exemplo, um filho que assume o lugar do pai; 3) mortes prematuras na família, seja por doenças, abortos, suicídios, assassinatos, acidentes; 4) pessoas que foram injustiçadas em casos de herança; 5) famílias com assassinos ou vítimas. É importante que a ocorrência destas situações seja investigada na família atual (cônjuges e filhos) e na família de origem: pais, avós, bisavós e até tataravós ou ainda mais longe, caso haja informações relevantes.

De posse destas informações, a pessoa pode abrir sua Constelação Familiar, o que pode ser feito em grupo ou individualmente. Ainda que não se tenha todas as informações, é possível que elas sejam acessadas ao longo da constelação que geralmente é feita em sessão única de cerca de 1 hora. Esta terapia já está bastante difundida no Brasil, onde há dezenas de cursos de formação e milhares de profissionais capacitados. Na área jurídica, o juiz Sami Storch vem usando esta ferramenta terapêutica antes das audiências, o que tem contribuído para a celebração de acordos em 100% dos processos judiciais.

Escrito por Cecília Costa*

*Cecília Costa é doutora em Ecologia, professora universitária, terapeuta em Constelação Familiar e Sistêmica e Aconselhadora Biográfica. É diretora do Instituto SerMente Livre onde facilita Constelações Familiares e Sistêmicas e ministra vários cursos de autodesenvolvimento em Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Recife.

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